quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Artes Cênicas


Sétima Bienal da UNE-


Na VII edição da Bienal, começa a se desenhar o espaço de Artes Cênicas e todo seu formato e programação. Única área da Bienal que aglutina três linguagens, esta, coordenada por mim, Thiago Pondé, se insere de maneira definitiva, não só na adequação ao tema geral, como também com certo equilíbrio entre as próprias linguagens que a compõe.

Sendo composta por oficinas, mostras e debate, a programação contempla tantos profissionais envolvidos em pesquisa, quanto os Pontos de Cultura com trabalho significativo na área.
De antemão, já se prevê uma oficina de acrobacia e outra de dança popular. Todas abertas a um público interessado em ter um contato inicial com o Circo e a Dança.

No debate, uma conversa sobre a interseção e fronteira é prevista. O modo poético de produção e as ferramentas técnicas disponíveis, além de certo caráter híbrido das produções atuais.

Por fim, na Mostra Selecionada por convite, a presença da Cia de Mystérios e Novidades, com o espetáculo a “Chegança do Almirante Negro na Pequena África”, relatando a Revolta da Chibata e a história da Zona Portuária, espaço contemplado e importante também para a história do Samba, tema da Bienal.

Outro espetáculo, em processo de negociação, é em homenagem ao compositor Candeia, ilustre carioca do morro, e representante do samba de raiz.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Fanfarra das Artes

Um dos realizadores do Cena Tropifágica:


CULTURA.EDUCAÇÃO

Considerações sobre Cultura e Educação:

Tópicos, idéias, reflexões:



- Em uma perspectiva mais ampla, a educação não formal, vivenciada em espaços que não tem como protagonismo a sala de aula ou que ainda resignifiquem a sala de aula como espaço de ensino, tem uma conexão vital e embrionária com a Cultura e com toda a contingência antropológica. É inegável que as experiências dos Pontos de Cultura envolvem uma iniciativa integrada e transversal. Esta visão está conectada com uma idéia maior, levada e considerada durante a última gestão do MINC, que é a Diversidade.

Este "conceito" bastante utilizado em grande parte dos discursos de articuladores, políticos, agentes de cultura, artistas, incluem uma síntese formal com a proposta pedagógica e com as ferramentas formuladoras das políticas públicas de Educação. Desdobrando metodologicamente e tecnicamente, contemplada pela fala de Gilberto Gil durante uma conversa com o CUCA, o modo de aprendizado, a vivência relativizada de contéudo, ou a idéia de ludicidade tão contemplada nos estudos contemporâneos sobre Educação, a traz ainda mais próximo para o universo da Cultura.

Exemplo: O adequamento da proposta pedagógica do "meio" rural, a partir de conteúdos e vivências locais. Melhor dizendo, porque a escola rural não possui uma disciplina Agricultura ou Pecuária ou Permacultura? Porque a Cultura local não é a idéia chave no pensamento de construção do contéudo e formato das políticas públicas de Educação? -

Obviamente que o desafio relatado por essa aparente segmentação, envolve cada comunidade requerida, sua forma de construção pedagógica, seu método de "ensino" e-ou vivência. Esta questão é crucial, principalmente pela consciência surgida em termos de grandeza, proporção e identidade cultural brasileira.

Ademais, sendo a contemporaneidade mote para idéias interdisciplinares, transversais e integradas, é importante a revisão de cada linha ou área crucial e suas sucessivas ligações associativas.
A Cultura e Educação não devem ser fragmentadas em sua concepção vital, pois além de serem um eixo de potencialização e desenvolvimento estratégico, estão desde o berço da pré-história da humanidade conectadas em sua experiência primeira e anteriores a proposta modernista de especialização e de educação como espaço escolar e sala de aula apenas, estando seu viés antropológico e comunitário como principal forma de formulação....

CENA TROPIFÁGICA

Espaço de Experimentação Artística


terça-feira, 19 de outubro de 2010

!

Sarau Tropifágico : Conexão Rio - Bahia - Shows e outras artes - Em busca de um hibridismo de linguagem.







Prólogo:




O projeto nasce por um ideário comum envolvendo a Antropofagia, a Tropicália e a Contra-Cultura, abarcando a relação entre estética, política e cultura, na dimensão da vida e da contingência histórica.

Uma certa afeição por esse universo aproxima pessoas para reunir, congregar, propor, estar, ser, experimentar.

Estas afinidades imbricadas, perpassadas em uma juventude plural e atual, começaram a construir uma teia comum de pensamentos e atitudes em artistas, produtores, jovens, estudantes, e pessoas de modo geral. O Sarau é uma possibilidade de mistura de sementes, de autonomias, de singularidades. Para ver o resultado.

O desbunde, a transgressão comportamental, a afetividade, a subjetividade, e toda uma gama envolvendo também psicodelia, expansão de consciência a partir do uso de enteogenos, e direitos civis de todos, estão no grande campo que conecta o debate cultural, estético e político e assim as contingências históricas brotadas desta vasta seara no tempo. Por esse viés se dá a concepção quista .

A partir do Manifesto da Juventude Tropicalista, começou a nascer projetos que visam provocar pequenas sementes de prazeres e quereres, em que há encontros conectados numa alteridade plena e identitária. Os afetos, o diálogo das subjetividades, o respeito as interpretações em sua autenticidade e autonomia, e a realização do gozo. Gozo como espasmo social. Espasmo que nasce da responsabilidade para com a vida e para com o outro. Agora de sujeito para sujeito. Sem objetos observadores.

Democracia? Ou assim ou de jeito nenhum.

A revolução, talvez se dê, pela maneira de acontecer, e esta, acreditamos, é de singularidades, de cada ser, humano, do cidadão, de sua existência, de sua história de vida,e daí de uma “real” tomada de consciência( racional, emocional, etc...),fortalecida pelo coletivo, pela nação, pelo mundo, pelo povo, através da impetração dos movimentos sociais, das políticas progressistas, e das pessoas de maneira indistinta. Para singularidades, não há padrões. Quiçá normas.

Alguém ainda “prega” que razão é só mente ou que emoção é só corpo? Para esse paradigma, novas resignificações da política, da religião, da filosofia,da ciência e da própria vida.


Instantes, momentos, aquis e agoras saudados pela estética e poética comprometidas e libertárias. De micro e Macro políticas. Sempre em horizonte. Nunca impostas ou verticais. Afinal, ou se está em consonância com os direitos civis, e com a cultura plural, ou é necessária uma revisão vital.

Faz-se a seguinte conclusão: Cultura nada mais é que saúde mental e educação afetiva. Daí a transversalidade. Um pouco de arte e de antropologia fazem bem a qualquer indíviduo-cidadão




Este projeto é a realização de um Sarau híbrido, com realização de um show, uma performance, exibição de curtas, recitação de poemas, Momento de Improviso Livre e DJ no Espaço Multifoco, localizado na Av. Mem de Sá. Um espaço ocupado por artistas, produtores, estudantes, jovens, e por pessoas de modo geral.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Impressões- Um pouco de história e memória - Conversa com Gilberto Gil acerca de sua trajetória artística e política.

Em plena segunda feira, início da tarde, nos preparávamos, um grupo de oito pessoas do CUCA da UNE ( Circuito Universitário de Cultura e Arte), para encontrar Gilberto Gil e conversar acerca da sétima edição da Bienal de Cultura da UNE e de tópicos que considerávamos importantes para o contexto cultural e político. Sabíamos, no fundo, que a amplitude de nosso assunto e aprendizado, transpassaria fatores múltiplos e desencadeados pela nossa vivência enquanto coletivo, entidade, etc, e que seriamos contemplados com uma experiência diferenciada e única, para todas as nossas vidas e para nossa atuação no universo cultural ...

*Ser um dos únicos baianos do grupo talvez me imbuísse de um sentimento diferente em relação a este momento, mas acredito que todos estávamos tão emocionados e ansiosos com relação ao bate papo, que confluímos numa energia única e total, pensando no sentido de Brasil e de País com uma miscigenação como poucos no continente mundial e global. Me sentia baiano e brasileiro. Humano e Artista.
Admirado e orgulhado do ser humano que encontraríamos e com o ouvido e corpo atentos e receptivos.

Ao som de Andar com Fé caminhávamos para lá e situada a demarcação ideológica e idiossincrática singular de cada um e do coletivo como um todo, partes de um mesmo, percebíamos interesses distintos e uma já antagônica e histórica diferença em termos de pensamentos enlaçados pela estética e a política.

Ao nos depararmos com um Gilberto Gil extremamente lúcido e fervoroso, com seu discurso sobre diversidade e admissão da diferença, fez-se clara, para mim ao menos, a idéia de coletivo , entidade ou instituição heterogênea, organizada pelos modos de pensar autonomia e comunicação na atualidade, possibilitando um intercâmbio de idéias que se dá no campo de singularidades e coletivos pensantes, em franco processo dialógico e dialético, e na contribuição particular de cada ente contributivo.
Algo que aos poucos define-se e situa-se na atuação dos agentes da cultura e nos contextos dos movimentos sociais e culturais atuais e contemporâneos, e que o distinguem da política e filosofia clássica, aproximando-os de uma antropologia e poética redimensionada e simbólica, por vezes subjetiva e própria.
“Hoje não é mais o pequeno recanto que reivindica sua sucessão ao universal, é o universal que chama o local para que ele venha.”

Gil, integrante do CPC baiano na época de sua juventude, talvez por experiência empírica, seja um ferrenho defensor de uma nova cultura política, abarcada por sua horizontalidade e transversalidade entre os conteúdos e linguagens dispostas no conhecimento, e nas organizações pragmáticas desse conhecimento circulado em sociedade. O Movimento Tropicalista, do qual Gil fez parte, contém um forte conteúdo de cunho comportamental, afetivo, sexual e estético, sendo sua história de ativismo, sempre voltada para compreensões micro e macro, de uma escala plana e circular, de movimentos revolucionários que se iniciam no interior de indivíduos e coletivos e partem para uma universalidade transformadora e tátil, linear e política.
Como diz Heloísa Buarque de Holanda: “ uma noção fundamental aparece no seio do movimento cultural de 60: a de que não existe possibilidade de uma revolução ou transformação social sem que haja uma revolução e transformação individual”.


Ao falar sobre como o tema diversidade se institucionalizou devido a pautas colocadas na ONU ( Organização das Nações Unidas), Gil se mostrou abarcador e sintético e reconheceu que em termos de Cultura, não se tem mais como criar fronteiras ou limites entre o fazer erudito ou popular, e que historicamente este entrelaçamento se deu em diversas instâncias. Algo que me suscitou a lembrança da Antropofagia e das apropriações regionalizadas de elementos não nacionais, a exemplo da guitarra elétrica e do nascimento e desenvolvimento do samba, enquanto poética musical imbuída de ser o ritmo genuinamente brasileiro e de caráter plural, logo diverso e multi étnico. Com a frase: “ A diversidade dá o tom da contemporaneidade”, Gil resumiu bem nossa era.

Ainda aferiu uma expressão metafórica e possivelmente polêmica em outros tempos, pontuando o nascimento de uma elite popular de contexto econômico
diferenciado, e de franco processo reorganizador enquanto pirâmide social, sendo a ferramenta internet, vital para este exercício democrático de construção coletiva ,de re-significação da realidade, de fruição da informação, de tomada de consciência, e de múltiplos primas e perspectivas.( Cultura Digital) . Para Gil, o celular é a guitarra elétrica da era de agora. Cabe nos perguntar: Quem não possui um celular nos dias de hoje?


Sempre aglutinador, e com a frase dita no filme Uma Noite em 67:“ Misturar as sementes para ver no que dá. Rolling Stones com Jorge Bem, Beatles com Banda de Pífanos de Caruaru“, Gilberto Gil foi revelando como permeou sua obra musical dessa epifania de elementos e como a criação artística, algo de seu mais genuíno, foi o instrumento de reivindicação e celebração dessa extensa e rica cultura global, de seu estado de espírito zen e disponível, criativo e inspirado,de sua influência da contra-cultura e da geração hippie. Em certo ponto, filosofou: “ O artista deve criar a partir de uma folha em branco. Conectado com o instante da criação”. Ou seja, com o que vier e se apresentar a ele, com a autenticidade do aqui e agora manifestado, trazido, revelado.

Toda sua atuação no Ministério da Cultura e a implementação do programa Cultura Viva aconteceram de maneira a indagar o que é Cultura, encarando-a como processo, e cedendo lugar a reflexão do papel do Ministério da Cultura enquanto fomentador e responsável pela reformulação da política cultural do País.
Como um mantra, que Gil repetiu quatro vezes durante nosso papo: “Só sei que nada sei, Só sei que nada sei, Só sei que nada sei, Só sei que nada sei”, ficou evidenciado que sua liderança foi exercida de maneira a disseminar esta postura aberta e crítica, preparada para atender os anseios reais de questões seculares e contingenciais.

No fim, Gil falou sobre a importância da conexão entre Cultura e Educação, e de como a lógica antropológica da Cultura determina um modo tal de aprendizado, que este deve ser revelado pela própria comunidade ou sujeito, concluindo que a sala de aula não é a única experiência possível enquanto processo pedagógico e de ensino.

O mais bonito se deu no fim. Percebi como cada um que saia do papo respirava fundo, de maneira a assimilar e ser afetado por toda aquela vivência.

* E eu abracei Gil, pois precisava a partir de um ato manifestar tudo que senti durante aquela tarde.

domingo, 29 de agosto de 2010